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7. Detalhes de Internacionalização

O Prémio Nobel da Literatura Bob Dylan em 2016 quebrou fronteiras. A primeira diz respeito à literatura. Os momentos subsequentes ao anúncio confirmaram-no nos meios de comunicação, principalmente nas redes sociais. A fervorosa discussão demonstrou que é importante refletir sobre o que é a literatura. A segunda é a do conceito de canção. Sendo um produto criativo no qual se associam elementos sonoros: palavras, a sua articulação e sustentação melódica, rítmica, tímbrica, condicionantes de produção e recepção diversos, entre outros, que sentido faz separá-los e reduzi-los a formatos expressivos parciais. Ao que parece, para a Academia Sueca, a canção é isso mesmo, um somatório de elementos sonoros, no qual a palavra – unidade literária essencial – significa bastante. Seria o elemento literário – transcrito em palavras – das criações de Bob Dylan algum dia reconhecido como prémio Nobel se não se tivesse desenvolvido em canções? As fronteiras da categorização tornaram-se campo de batalha intelectual. A discussão envolve comentadores anónimos das redes sociais ou jornalistas mais ou menos legitimados. A importância do acontecimento é central na análise dos eventos em torno do Prémio Nobel da Literatura de 2016. Se ao longo da história os prémios agregaram categorias em ramos de conhecimento e ação, hoje, o caso de Bob Dylan e do comportamento expressivo premiado gera fragmentações. O cerne de discussão é não só a ação de um criador musical popular e crítico, como o facto de a ordem estabelecida ter sido inexoravelmente abalada. Haja maior ou menor acordo na atribuição do prémio a Bob Dylan, a sua importância pelas questões que coloca está na ordem do dia. O conhecimento reconheceu a arte popular. Nem a canção crítica nem a literatura serão o que eram até 13 de outubro de 2016. Parabéns à Academia Sueca pelo arrojo e a Bob Dylan pelas canções corajosas!

João Ricardo Pinto

Foto de Patti Smith
Patti Smith cantando A Hard Rain’s A-Gonna Fall de Bob Dylan,
cerimónia do prémio Nobel. Foto de Jonas Ekstromer/AP


Batida no ativismo angolano é um projeto de música, dança e vídeo que alerta sobre injustiças sociais em Angola. Começou como programa de rádio, transformou-se em álbum e como espetáculo viaja entre Portugal e o mundo. O interesse do seu mentor Pedro Coquenão por música, rádio, dança, vídeo e documentário determinou-o em 2007 e em 2009 estreou. Editada e distribuída internacionalmente pela Soundway Records, Batida reúne músicos angolanos e portugueses. A sua ligação às manifestações populares em Angola e a denúncia das injustiças do regime fizeram com que entrasse na “lista negra” em Angola e passasse a ser ouvida apenas em circuitos clandestinos. Em entrevista ao Público (26/03/2012), Coquenão referiu que “há sempre um lado de mensagem”, sublinhando o papel que os artistas desempenham na sua “celebração” que “já tem um lugar no mercado” e “já faz parte da cultura”; e que os artistas necessitam de maior divulgação e proteção uma vez que a realidade angolana é “bruta”: os artistas mais expostos podem sofrer represálias, ficar sem amigos ou sem emprego, porque ir a um concerto “já é, por si só, um ato de coragem”. Coquenão partilha o palco com outros músicos, MCs e bailarinos, recorrendo a projeções de vídeo para ampliar as narrativas. A colaboração com Luaty Beirão (que assina Iknoclasta ou Brigadeiro Mata Frakuzx) é exemplo disso. Este rapper, filho de elites angolanas, detido em 2015 e este ano condenado, publicou recentemente o seu diário em que relata a prisão, afirmando que não esperava a projeção internacional desta denúncia do que considera ser um status quo injusto. Batida atua em festivais em Portugal (FMM e MED) e por toda a Europa, recebendo prémios internacionais: melhor artista no Songlines Music Awards; melhor álbum europeu indie nos Impala Awards; melhor espetáculo em festivais de música pela revista Les InRockuptibles.

Sofia Vieira Lopes

Mostafa Anwar Swapan
Coquenão. Foto de Vera Marmelo


Quando a gente muda, o mundo muda com a gente, Gabriel, o Pensador é um rapper, compositor e escritor brasileiro. Lançado em 1992 pela Sony Music com Tô Feliz (Matei o Presidente) numa postura política crítica foi, em pouco tempo, censurado pelo regime de Collor de Mello, que diretamente visava. O Ministério da Justiça considerou que esta música continha frases ofensivas e apelava ao assassinato do presidente. Três anos depois, o seu segundo álbum provocou uma polémica no meio dos profissionais de educação devido ao conteúdo da letra da canção Estudo Errado que questionava os métodos tradicionais de ensino: “Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci / Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi”. Como o próprio assinalou, foi o convívio enquanto jovem com os habitantes da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, que o alertou para as desigualdades sociais levando-o a interessar-se por rap. Crítico relativamente ao status quo, as suas músicas abordam temas socialmente relevantes como o alcoolismo e as dependências, o desemprego, a saúde pública, a marginalidade, o racismo, a liberdade, a pobreza, entre outros, principalmente a partir de metáforas, jogos de palavras, sátira e ironia. Marcados pela consciência social e política, os seus trabalhos têm contado com participação de outros músicos como Martinho da Vila, Zeca Baleiro, Fernanda Abreu, ou Titãs. Gabriel destaca-se na escrita para crianças com vários projetos de intervenção social e luta de vida. O seu trabalho atingiu grande sucesso em Portugal depois de ter ganho o Troféu Imprensa para melhor cantor no final da década de 1990. O seu trabalho como músico e escritor tem sido galardoado, destacando-se no MTV Video Music Brasil.

Sofia Vieira Lopes

Mostafa Anwar Swapan
Gabriel, o Pensador. Fotografia de Sónia Pena


Ana Tijoux canta pela condição feminina entre outras preocupações sociais. A cantora franco-chilena evidencia-se contra a objetificação feminina. Filha de chilenos obrigados ao exílio em Paris durante a ditadura de Pinochet, viveu a infância em França, estabelecendo-se no Chile depois da queda do regime ditatorial, onde iniciou carreira como MC no grupo Makiza em 1997. Este grupo, com o qual gravou três álbuns, ficou conhecido pela crítica ao regime militar chileno, abordando temas tabu até então. O êxito no país foi enorme. No início dos anos 2000 viajou novamente para Paris e em 2007 iniciou carreira a solo. Tal como refere na sua página no Facebook, “que no es tan solista puesto que trabajo con mas personas”. Desde 2007 gravou três discos, sendo o último nomeado para um Grammy Latino na categoria de Música Urbana. Tijoux tomou contacto com o hip-hop nas visitas aos bairros de imigrantes senegaleses, marroquinos, argelinos e de outros pontos de África em Paris, enquanto acompanhava o trabalho da sua mãe, destacada socióloga. Numa entrevista à Harvard Gazet afirma que neste contexto de deslocação, o hip-hop se tornou uma espécie de pátria para aqueles que não a têm. Os seus raps versam sobre questões sociais, com temas como anti-colonialismo, feminismo, anti-objetificação feminina, neoliberalismo e resistência, cruzando diversos elementos musicais, usando flautas de pan, charangos e outros instrumentos da América Latina. Influenciada pela música de Violeta Parra, Anita afirma que o hip-hop é a sua forma de reagir contra o status quo. Para além dos concertos em diversos países, e em Portugal onde tocou no FMM (Sines) em 2015, e no Ciclo Mundo FMM/INATEL (Lisboa) em 2016, a sua música cruzou fronteiras na série televisiva Breaking Bad, da HBO, e nas colaborações com músicos como a palestiniana Shadia Mansour, entre outros.

Sofia Vieira Lopes

Mostafa Anwar Swapan
Ana Tijoux. Fonte MQLTVcom


Mostafa Anwar Swapan, embalado pelas velhas canções do poeta rebelde Kazi Nazrul Islam (em gravações dos anos de 1920), aprendeu música, a partir dos 5 anos, no seio da sua família em Patuakhali, no Bangladesh, para se tornar ativista da revolução nacional no Grupo Cultural da Universidade de Dhaka (DUCT). Vivendo atualmente entre Lisboa e a sua cidade natal, por razões académicas, este cantor e autor de canções de protesto Bengali é físico de formação. Os valores humanistas, de liberdade e paz que professa, enraízam-se na luta pelos direitos humanos na formação do Bangladesh como nação independente. Mostafa lembra o papel dos lendários Prof. Dr. Abu Hena Mostafa Kamal, Sheikh Lutfur Rahman, Samar Das e do seu Guru Ajit Roy, e o trabalho que desenvolveu com a lenda viva, seu músico favorito e mentor, Sujeo Shyam; como todas as canções patrióticas e de protesto destes importantes músicos bangla o marcaram, ajudando a definir os valores humanistas que o guiam ao longo da vida. Lembra como a polícia assassinou a tiro Noor Hossain enquanto envergava, no próprio corpo, os slogans Libertem a Democracia, e Abaixo o Ditador, respetivamente no peito e nas costas. “Este foi um momento trágico e heróico para todos os que, tal como eu, faziam parte do movimento pró-democracia. Tornámo-nos testemunhas de um novo Bangladesh numa unidade inflamada e sem precedentes contra o regime militar. No mesmo dia, compus a minha primeira e mais famosa canção de protesto, Let the Democracy be Free, Let the Dictator be Down, transpondo a força, aspirações e emoções reais desse movimento. Em 2000 Shyamol Kanti Chowdhury dirigiu, arranjou e publicou um álbum intitulado Swadesh Premer Gaan: The Songs for Motherland com 13 das minhas canções de protesto compostas maioritariamente durante a nossa participação no DUCT, interpretadas por maravilhosos colegas, co-artistas e amigos.”

Sofia Vieira Lopes

Mostafa Anwar Swapan
Poucos minutos antes do Mártir Noor Hossain ter sido abatido a tiro pelos agentes
do ditador a 10 de Novembro de 1987 (Cortesia fotográfica: Pavel Rahman)


Fernando Lopes-Graça e a dimensão internacional da sua reflexão musical é uma preocupação que a análise de Mário Vieira de Carvalho (MVC) captou com especial clarividência no livro Pensar a Música, Mudar o Mundo em 2006. A natureza internacional da reflexão de Lopes-Graça que se via a si próprio como músico de ação, ideia que expressou ligar diretamente, em 1945, ao que viria mais tarde a designar-se como música de protesto, perpassava todos os tipos de música com que lidou, do contexto mais erudito ao mais popular, nunca desprovido de consciencialização social. A rejeição de uma identidade nacional hegemónica fez com que olhasse a música tradicional como fonte de potencialidades, testemunho da “acção vivida”, experiência social, inesgotável nas disrupções, idiossincrasias e inquietações inerentes. Lopes-Graça considerava que a universalidade da música reside no seu valor de diferença, como conjunto de individualidades, identidades em constante mutação e diálogo, numa dialética entre o local e o universal porque, como sublinha Vieira de Carvalho, “o florescimento do nacional supõe (…) uma interacção com o universal baseada numa relação de liberdade e não de dominação, assim como, por outro lado, o florescimento do universal só é possível aceitando e promovendo as diversidades nacionais (ou culturais)”(MVC:25). Lopes-Graça entendia que é da forte ligação ao local que pode nascer a dimensão universal: “um compositor torna-se universal porque é representativo duma idiossincrasia, de uma experiência histórica” (MVC:135); e que a possibilidade de, “…partindo do material popular nacional, se chegar a uma música de um profundo e humano universalismo”, faz com que se observe a diferença contra-hegemónica, rejeitando uma “contrafacção folclórica” valorizadora apenas do pitoresco. O testemunho de Graça, de constante interrogação e intervenção, porque a identidade artística é “produto de uma equação entre o artista e o seu meio” (MVC:13, 14), revela ligação intrínseca entre pensamento e mudança.

Sofia Vieira Lopes

Foto de Fernando Lopes-Graça
Fernando Lopes-Graça. Foto de Leonor Lains

Referência citada:

  • Vieira de Carvalho, Mário (2006). Pensar a música, mudar o mundo: Fernando Lopes-Graça. Porto: Campo das Letras.


Apresentação Introdução Prólogo 1 2 3 4 5 6 7 Notas Biográficas